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Antes do voto, olhe além da tela do celular

usuariojornal
Ultima atualização: 2026/08/15 at 9:11 PM
usuariojornal Publicados agosto 15, 2026
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*Por Maurício Juvenal

Nunca tivemos tanta informação política ao alcance das mãos. E talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir informação de exposição.

Nas redes, candidatos aparecem todos os dias. Opinam, provocam, indignam-se, fazem graça e disputam nossa atenção. Conhecemos seus rostos, bordões e até suas rotinas. Mas conhecemos suas ideias? Será que realmente sabemos o que fizeram, ou o que pretendem fazer, com o poder que estão pedindo ao eleitor?

Não se trata de demonizar as redes. Elas ampliaram vozes, reduziram distâncias e aproximaram representantes e representados. O problema começa quando confundimos visibilidade com representatividade.

Ser conhecido não é estar preparado. Seguidores não significam conhecimento dos problemas. Vídeo viral não é política pública. Frase de efeito não é projeto. E indignação, por mais compartilhável que seja, não substitui capacidade de construir soluções.

Por isso, antes de votar, uma pergunta deveria anteceder todas as outras: por que essa pessoa merece meu voto além do fato de eu conhecê-la?

Quem busca a reeleição chega ao eleitor com algo mais  do que promessas, ou seja, chega com um mandato. O que entregou? Como votou? Que projetos apresentou? Que problemas prometeu enfrentar? Esteve presente apenas nas redes ou também onde as decisões foram tomadas?

Quem ocupa um cargo e pretende outro também precisa explicar o que fez com a responsabilidade que já recebeu. A política não deveria funcionar como uma escada automática em que cada eleição é apenas o próximo degrau de uma carreira.

E o candidato de primeira viagem? Não tem mandato para prestar contas, mas tem uma trajetória. Que experiência apresenta? Conhece os problemas sobre os quais fala? Suas propostas são factíveis? Que lastro existe por trás da imagem que chegou à nossa tela?

A questão ganha importância porque a política passou a obedecer também à economia da atenção. Propostas sobre educação, segurança, saúde, saneamento ou desenvolvimento disputam espaço com memes, polêmicas e vídeos de segundos. A lógica das plataformas é conquistar atenção. A lógica da democracia deveria ser produzir representação.

Há ainda uma outra pergunta que parece andar esquecida e que dá conta se o candidato fala dos problemas que terá poder para enfrentar? Um deputado estadual pode construir enorme audiência debatendo grandes questões nacionais, mas será eleito para exercer competências estaduais. Conhecer as atribuições do cargo também qualifica o voto.

Talvez, então, o eleitor possa fazer um pequeno teste antes de escolher. Retire por alguns minutos os seguidores, as curtidas, os bordões, os memes, a celebridade e a indignação do dia. Pergunte o que o candidato já fez, o que propõe, se poderá cumprir e se suas prioridades correspondem aos problemas de quem pretende representar.

Depois de retirar tudo isso, o que sobra? Se ainda sobra uma boa razão para votar nele, ótimo. Talvez você tenha encontrado um representante.

Não há problema em votar em alguém famoso ou comunicativo. O problema começa quando fama se transforma em credencial suficiente para o exercício do poder. Representar exige ouvir, negociar, fiscalizar, decidir e prestar contas. Exposição exige atenção.

Às vezes, a mesma pessoa reúne as duas capacidades. Outras vezes, não. Cabe ao eleitor descobrir a diferença.

Em tempos nos quais todos disputam nossa atenção, talvez um pequeno ato de resistência democrática seja olhar menos para aquilo que um candidato parece ser e mais para aquilo que fez, sabe, propõe e será capaz de fazer.

O voto continua sendo secreto. A escolha, porém, não precisa ser feita de olhos fechados.

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. É secretário nacional de Ambiente de Negócios, no Ministério do Empreendedorismo, e foi secretário estadual de Planejamento e Gestão do Estado de São Paulo.

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usuariojornal agosto 15, 2026 agosto 15, 2026
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